Associados
Beneméritos

Avelino de Jesus
Stefan Rahmstorf

A Idade do Calor

O último mês de Abril foi o Abril mais quente de que há registo a nível global

O último mês de Abril foi o Abril mais quente de que há registo a nível global nos últimos 130 anos, de acordo com os registos de temperatura realizados pela NASA e pela Administração Atmosférica e Oceanográfica dos Estados Unidos. Os últimos 12 meses foram o período de 12 meses mais quente desde que se iniciaram os registos.

Isto é o que mostram os dados das estações e barcos meteorológicos. Mas se preferirem os dados de satélite, as conclusões são muito semelhantes. Segundo os dados de satélite o último mês de Março foi o Março mais quente de sempre, e Abril o segundo mais quente; os dados da superfície revelam o contrário: que Março foi o segundo mais quente e Abril o primeiro mais quente.

Claro, que mais importante, em termos científicos, é a tendência de longo prazo. Nos últimos 30 anos, período das medidas de satélite – a tendência é claramente de subida na temperatura e semelhante, em termos de magnitude, em todos os grupos de dados disponíveis.

Se continua a ter dúvidas sobre o aquecimento do planeta, olhe para a diminuição dos glaciares em todo o mundo ou para a redução da placa de gelo no Oceano Árctico, que nos últimos Verões tem tido pouco mais de metade da dimensão que tinha nos anos 70.

O que está a causar o aquecimento climático? A física diz-nos: se querem saber porque está a ficar mais quente, procurem a fonte de calor (é uma consequência da primeira lei da termodinâmica: a energia é sempre conservada). Assim temos que analisar o equilíbrio de calor do nosso planeta para perceber as razões do aquecimento.

Isso é surpreendentemente simples: existe uma fonte de calor a entrar, a radiação do sol (que é uma luz extremamente visível, ou o que os físicos chamam radiações de onda curta). E existe apenas uma forma do calor deixar o planeta, através das radiações de calor (que é invisível ou o que os físicos chamam de radiações de onda larga). São essencialmente o mesmo fenómeno físico; a diferença na longitude da onda apenas existe porque o sol é muito mais quente do que a Terra.

Alterações na radiação solar poderão, assim, explicar o aquecimento do planeta? Medições das radiações solares que entram na Terra mostram que estas não aumentaram nos últimos 50 anos – de facto, os registos até mostram uma ligeira redução. Mas a característica predominante nos registos é a predominância de ciclos de radiação solar que duram cerca de 11 anos (chamados ciclos Schwabe, devido ao astrónomo que os descobriu em 1843).

Nos últimos anos, temos estado no mínimo mais profundo e longo de um ciclo de Schwabe desde que começaram os registos de satélite. Ou seja, enquanto as temperaturas globais estão no nível mais elevado, o sol nunca esteve tão ténue em décadas. Claramente, as alterações na actividade solar não podem explicar o aquecimento global.

Isso dá lugar a outro factor que afecta a radiação solar: quanta radiação é reflectida para o espaço pelo gelo, neve, nuvens, areia do desertos e outras superfícies brilhantes. De facto, parte do aquecimento observado deve-se a um menor reflexo, à medida que a neve e a placa de gelo diminuem. Isto permite que o sistema climático absorva mais calor solar, razão pela qual o Árctico tem aquecido a um ritmo mais rápido do que outras partes do mundo. Mas a diminuição da neve e da placa de gelo é ela própria resultado do aquecimento. Assim, a diminuição dos reflexos dos raios solares não são a primeira causa do aquecimento. Na verdade, é uma reacção que amplifica o aquecimento.

Os seres humanos têm alterado o brilho da Terra – tal como é visto do espaço – de formas mais directas. Mas converter florestas em terras de cultivo (que são muito mais brilhantes do que as florestas) e adicionar partículas de “smog” na atmosfera (que reflectem a luz do sol) aumentaram o reflexo da radiação solar e conseguiram anular parte do aquecimento global que de outra forma teria acontecido.

Assim ficamos com a segunda parte do défice de calor planetário: o calor que escapa para o espaço. Isso pode ser alterado lançando para atmosfera gases que “aprisionam” o calor – os chamados gases com efeito de estufa, que absorvem as radiações de onda longa quando saem e enviam uma parte, de novo, para a superfície.

A importância deste “efeito de estufa” é conhecida da ciência desde o século XIX, quando Joseph Fourier definiu o termo. Ninguém o descreveu de forma tão clara como o físico John Tyndall, que foi o primeiro a medir o efeito, em 1869, no seu laboratório, de diversos gases, incluindo o dióxido de carbono (CO2). John Tyndall escreveu: “A atmosfera admite a entrada de calor solar mas controla a sua saída; e o resultado é uma tendência para acumular calor na superfície do planeta”.

Através de medições sabemos que os gases com efeito de estufa estão a acumular-se na atmosfera da Terra. Os níveis de dióxido de carbono estão um terço mais elevados do que em qualquer altura no último milhão de anos devido às emissões industriais. Podemos calcular em que medida isto alterou o equilíbrio de calor da Terra. Precisamente, no montante que explica o aquecimento observado. Esta é uma de muitas razões porque quase nenhum cientista do ambiente sério duvida que os gases com efeito de estufa são a causa do aquecimento global.

De facto, este aquecimento foi previsto antes de ser observado. O aumento dos níveis de CO2 é conhecido desde 1960. Em 1975, o cientista norte-americano Wallace Broecker publicou um estudo na revista “Science”, intitulado “Are We on the Brink of a Pronounced Global Warming?”. Nesse estudo, Wallace Broecker previa, de forma correcta, “que a actual tendência de arrefecimento vai dar lugar dentro de uma década ou mais, a uma significativa tendência de aquecimento devido ao dióxido de carbono”, e que “no início do próximo século, o CO2 vai levar as temperaturas do planeta para níveis superiores aos sentido nos últimos mil anos”. Wallace Broecker previu um aquecimento global de 0,8ºC no século XX. Ele acertou todas as previsões.

Muitas pessoas opõem-se à ciência que estuda o aquecimento global. Mas as leis da física não se rendem sem se oporem: nos últimos 35 anos, o aquecimento global ocorreu tal como previsto pela ciência. Muito provavelmente vai continuar a ocorrer até que o paremos através da redução de emissões de CO2.


Stefan Rahmstorf é professor de Física dos Oceanos na Universidade de Potsdam e director de departamento no Instituto Potsdam para a Pesquisa para as Alterações Climáticas. O seu mais recente livro intitula-se “The Climate Crisis”.


© Project Syndicate, 2010.
www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Luísa Marques

in JORNAL DE NEGÓCIOS

[fonte: http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=440269]

Retroceder

Siga-nos em LinkedInfacebook| Contactos | Mapa do site | Termos e condições de utilização | @ 2010 ADFERSIT. Todos os direitos reservados