Mário Lopes
Membro da Direcção
da ADFERSIT, Prof. do Dept. de Eng. Civil
do Instituto Superior Técnico
As condicionantes ambientais (saturação
de estradas com camiões, poluição e outras
externalidades) e energéticas (escassez
futura e aumento do preço do petróleo) já
impulsionam e forçarão no futuro a adopção
de políticas de transporte de mercadorias e
passageiros com a maior quota possível de
participação dos modos de transporte marítimo
e ferroviário, os mais eficientes destes
pontos de vista. No entanto o modo rodoviário
também continuará a ser indispensável,
em particular para o transporte porta-a-porta
e o modo aéreo para o transporte de passageiros
a longa distância. Neste contexto
um factor muito importante para a eficiência
dos sistemas de transporte será a integração
dos diferentes sistemas entre si.
Dada a ineficiência de manter as nossas
importações e exportações para a Europa
(cerca de 80% do total) por via rodoviária
como actualmente, a competitividade da
nossa economia exige que estas se passem
a fazer em grande parte por via ferroviária.
Por sua vez a competitividade do transporte
ferroviário de mercadorias exige que este
seja directo, isto é, sem paragens e esperas
forçadas e inúteis. Mas isso neste momento
é impossível por causa da diferença da bito-
A nova rede ferroviária
em bitola europeia
la ferroviária (distância entre carris) que em
quase toda a Europa ocidental é diferente da
nossa (excepto Espanha, mas só temporariamente)
e obriga a transbordos ou mudanças
de rodados dos vagons. Por isso a mudança
da bitola, coordenada com Espanha,
deveria ser uma das principais prioridades
da nossa política de transportes.
Como segunda prioridade da rede ferroviária
coloca-se a questão da melhoria da sua
qualidade, nomeadamente da velocidade,
em particular para passageiros. Não interessa
a Portugal que as condições de mobilidade
em Espanha sejam claramente superiores,
porque isso também afectaria a nossa
capacidade de atracção de investimentos e
turistas.
Como os objectivos propostos, em particular
a mudança da bitola, implicam em vários
casos a construção de novas Linhas alternativas,
Portugal precisa de uma nova rede ferroviária
cuja principal característica tem de
ser a interoperabilidade total com as restantes
redes europeias, ou seja, ter a mesma
bitola, sinalização e electrificação.
Para que se retire o máximo partido da nova
rede esta deve (i) ser totalmente mista (apta
para tráfego de passageiros e mercadorias)
e estar ligada aos portos e principais
centros industriais e plataformas logísticas
para possibilitar o transporte directo de
mercadorias para o centro da Europa, e (ii)
passar em plena via nos aeroportos (como
recomendado no livro branco da Comissão
Europeia) de Lisboa, Porto e Faro, criando
assim boas acessibilidades internacionais
para passageiros às cidades servidas pela
nova rede ferroviária e sem aeroporto internacional
(Coimbra, Aveiro, Évora, etc.), um
factor importante para a sua competitividade
económica.
Para se implementarem as políticas propostas
é preciso corrigir alguns projectos: (i) a
Linha de Alta Velocidade (AV) Lisboa-Porto
deve passar a ser mista e não apenas para
passageiros (caso contrário as Linhas em bitola
europeia aptas para mercadorias ficam
sem ligação entre si e não haverá alternativa
para o transporte ferroviário de mercadorias
durante a mudança da bitola na actual Linha
do Norte), (ii) deve passar em plena via no
Novo Aeroporto de Lisboa (NAL), (iii) a nova
rede em bitola europeia deve ser ligada aos
principais portos.
Para viabilizar os objectivos anteriores é
necessário rever o traçado da Linha de AV
Lisboa-Porto, em que a aproximação a Lisboa
deve ser feita pela margem esquerda do
Tejo (onde é possível reduzir as inclinações
para valores que tornam viável o tráfego de
mercadorias e poupar muitas centenas de
milhões de euros na construção, pois é uma
zona plana) passando no NAL e o atravessamento
do Tejo deve ser feito no corredor
Beato-Montijo, pois relativamente à ponte
Chelas Barreiro é mais barato, encurta a
distância do NAL a Lisboa em cerca de 40%
e mantém a ligação de Lisboa ao Barreiro,
entre outras vantagens. O argumento utilizado
pelo Governo para escolher a ponte Chelas-
Barreiro é que segue um parecer técnico
do LNEC, o que é falso. O parecer do LNEC
apenas é válido no âmbito de um Mandato
que lhe foi imposto pelo Governo (1ª linha da
página 270 do relatório do LNEC) e que forçava
a escolher o corredor Chelas-Barreiro,
pois impunha como critérios de comparação
entre alternativas apenas os que eram favoráveis
a este corredor e excluía outros critérios
de interesse público.
in JORNAL FERROVIAS - ABRIL 2010
[link: Jornal Ferrovias - Abril 2010 - Formato PDF]